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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A ÚLTIMA NAU: A POESIA MESSIÂNICA E A MÚSICA APOCALÍPTICA*



Uma dessas curiosidades ditas dos poetas é que João Cabral de Melo Neto não gostava de música. Nada mais estranho para quem conhece as composições de Chico Buarque de Holanda sobre seus poemas. Caetano, numa de suas canções, diz gostar da “música da poesia de um certo João que não gostava de música”. Destarte, Chico e Caetano (sempre eles!) revelam o quanto musical é o texto poético cabralino, a despeito de poder o artista, conscientemente, não se dá conta disso. Semelhante resultado conseguiu o cineasta baiano André Luiz de Oliveira, numa de suas investidas como compositor de música popular, com a poesia de Fernando Pessoa, embora provavelmente ninguém duvidasse da musicalidade intrínseca ao texto pessoano, principalmente seu autor. Entre as composições de André, destaca-se a música feita para o poema épico A Última Nau, peça do singular livro Mensagem, a qual consegue captar o “clima” do texto.

Mas qual seria, então, o “clima” de A Última Nau? Se permitíssemos usar uma linguagem bíblica, em vez de uma terminologia acadêmica, diríamos que o poema é um texto apocalíptico-messiânico. Na Academia, provavelmente diríamos tratar-se de um poema moderno que aborda o mito sebastianista. No entanto, independentemente da linguagem adotada, o poema exemplifica o aforismo pessoano: “o mito é o nada que é tudo”. É o poeta, para Pessoa, um criador de mitos. O mito como elemento de (re)significacão da realidade, como explicação primordial, como via de contato com as divindades que determinam o destino dos homens. Pessoa faz, então, como se fez com o inofensivo filho de carpinteiro que pregava na Galiléia: tornou D. Sebastião numa figura maior do que efetivamente era, alçando-o como um redentor ou restaurador da glória de Portugal. Nos evangelhos, Cristo assume esse papel em relação aos eleitos. O homem histórico Jesus passa a mito no momento em que parte, envolto em mistério, com a promessa de voltar: “Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais; mas vós me vereis, porque eu vivo, e vós vivereis.” (JO 14:19); “Não vos deixarei órfãos; voltarei a vós” (JO 14:18). Em A Última Nau, D. Sebastião também parte, “entre choros de anciã e de presago” e “mistério”:

Levando a bordo EI-Rei Dom Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto, o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de anciã e de presago
Mystério.

O D. Sebastião histórico sai de cena para dar lugar ao D. Sebastião mítico, criado por Fernando Pessoa, o qual conduziria a nação portuguesa para um espiritual Quinto Império. Daí o personagem ser cada vez mais envolvido em mistério:

Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Volverá da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.

Como se pode perceber com a leitura da estrofe acima, o eu-lírico se transmuta numa espécie de profeta, capaz de contemplar a projeção do futuro, o “sonho escuro e breve”. Isso o assemelha ao evangelista João, autor das Revelações, o qual prenuncia o fim glorioso para os eleitos: “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até mesmo aqueles que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim. Amém.” (AP 1:7) Todas as tribos, menos os escolhidos. Em relação a esses, no Apocalipse se lê que “Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.” (AP 21:4). Por isso a confiança do eu lírico:

Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minh'alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.

O poema, como dissemos, assume um ar escatológico, apocalíptico. D. Sebastião é uma espécie de Cristo, o esperado, o encoberto. A música feita por André Luiz de Oliveira, os arranjos produzidos se harmonizam com esse ar escatológico. O som dos instrumentos parece sugerir a própria imagem da nau de D. Sebastião surgindo no mar sem “tempo ou 'spaço”. Eles surgem de maneira grandiosa, desde as primeiras notas, como se estivessem a anunciar um evento épico. A voz “cavernosa” de Zé Ramalho contribui muito para isso. O compositor paraibano, com seu timbre grave e único, transmite essa gravidade para a composição de André Luiz de Oliveira. Assim como Elis Regina disse que se Deus falasse seria com a voz de Milton Nascimento, é possível dizermos que se o Apocalipse fosse narrado, seria com a voz de Zé Ramalho. Este já teve sua música associada com o absurdo, com o onírico, com o escatológico. As canções A Terceira Lâmina e Canção Agalopada exemplificam bem isso. Daí André não poder ter feito escolha mais acertada. Ao interpretar A Última Nau, Zé Ramalho torna-a próxima de suas próprias composições apocalípitico-surrealistas. Tal aproximação pode ser melhor evidenciada com a última estrofe do poema, a qual traz a indefinição própria do mito. O apóstolo Marcos, reproduzindo as palavras do próprio Cristo sobre o fim dos tempos, registra que “quanto, porém, ao dia e à hora, ninguém sabe, nem os anjos no céu nem o Filho, senão o Pai.” (MC 13.32) Numa das canções de Zé Ramalho, Ave de Prata, caracterizada pela presença de um tempo indefinido, encontramos: “E nesse momento, tudo deve calar/ numa história que venha do povo/ O juízo final.” Ademais, em Canção Agalopada, encontramos: “Foi um tempo que o tempo não esquece/ Que os trovões eram roucos de se ouvir/ Todo o céu começou a se abrir/ Numa fenda de fogo que aparece”. O momento e o tempo citados por Zé Ramalho são indeterminados, de acordo com o desfecho do poema de Pessoa.

Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mystérío.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.

A música de André Luiz de Oliveira é realmente bela e merece ser apreciada, bem como a poesia do mais importante poeta da língua portuguesa.

*Texto produzido por Sérgio Santos como atividade avaliativa da disciplina Literatura Portuguesa III, ministrada pelo prof. Márcio de Lima Dantas (UFRN, 2004).

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