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domingo, 26 de agosto de 2012

MACIEL MELO


Na entrada de Iguaraci, cidade do sertão pernambucano, a 363 km do Recife, uma placa avisa orgulhosamente: Está é a terra de Maciel Melo. Não são necessários adjetivos, nesta justa homenagem que os conterrâneos prestam ao mais completo compositor de forró em atividade no Nordeste. Maciel Melo não é apenas um cantor e compositor que recriou o forró nos anos 90, é hoje uma referência da música nordestina, cuja estrutura revolucionou a partir do xote Caboclo sonhador, popularizado por Flávio José e Fagner, e pelo próprio autor.

O primeiro disco de Maciel Melo, lançado às duras penas em 1989, um bolachão de vinil, chama-se Desafio das Léguas. Já na estréia o artista sabia que a caminhada não seria fácil. Um trabalho ousado para um desconhecido. Desafio das Léguas (que está por merecer um relançamento em CD) tem participações de Vital Farias, Xangai, Dominguinhos, e Décio Marques. Como esses medalhões da música dos sertões foram parar num LP de um novato? Elementar, talento reconhece talento. Eles gostaram, de cara, das canções que Maciel lhes mostrou.
Assim como Baião foi composta por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira num prédio comercial no Centro do Rio, Caboclo Sonhador foi feita por Maciel Melo no Centro de São Paulo, onde passou algum tempo, tentando domar a megalópole. Num dia em que lhe bateu o banzo, vontade de voltar ao Nordeste, saudades da família, e, sobretudo, a resistência para não se enquadrar num emprego convencional e largar a música, mais que vocação, a energia que o move. A fria e cinzenta São Paulo acabou o presenteando com este clássico, que provavelmente não teria existido da mesma forma se ele não houvesse ido para a maior cidade da América Latina.

Como os melhores poetas do repente, a Maciel Melo basta-lhe um mote para nascer uma música. O Solado da Chinela, por exemplo, que dá nome ao seu nono disco, foi inspirada, acreditem, num par de chinelos velhos, daqueles bem surrados e confortáveis, testemunha de muitas histórias. O segredo do bom criador está na argúcia de vislumbrar o universo nas pequenas coisas desdenhadas pela maioria das pessoas. Basta lembrar o épico que Zé Dantas, nascido em Carnaíba, mesma região em que nasceu Maciel Melo, criou a partir do humilde riacho do Navio.

Ele foi aperfeiçoando sua arte com o passar dos anos, que o aprimorou não apenas como um melodista engenhoso e letrista preciso, mas também como um grande cantor, e não só de suas próprias composições. Maciel Melo faz releituras de O Menino e os Carneiros, de Geraldinho Azevedo e Carlos Fernando, Fuxico, de Dinho Oliveira, Flor mulher, de Aracílio Araújo e Pinto do Acordeom, e Serrote Agudo, de José Marcolino (interpretada da forma como foi composta originalmente, antes de Luiz Gonzaga grava-la, um aboio, a capella), ou Chororô, de Gilberto Gil.

O que diferencia Maciel Melo de forrozeiros que se jactam de fazer o "autêntico" forró pé-de-serra, é, primeiro: ele não alarda que faz forró pé-de-serra, porque o faz tão naturalmente que não carece justificar isso. Segundo: porque, sertanejo da gema, aprendeu com o pai, Heleno Louro, ou Mestre Louro, tocador de sanfona de 120 baixos, que o autêntico forró pé-de-serra não se limita à sanfona, zabumba e triângulo (um formato somente definido nos anos 40 por Luiz Gonzaga). Vale-se também de violão com baixaria, sopros, cavaquinho e até banjo. Jackson do Pandeiro também sabia disso, na dúvida, ouçam seus discos dos anos 60. E mesmo tão autenticamente sertanejo Maciel Melo, não dispensa a violão ou guitarra elétrica, nem deixa de reverenciar a música urbana do litoral. Em o Coco da Parafuseta (do CD O solado da Chinela) ele, entre citações a artistas pernambucanos como Naná Vasconcelos, o agitador cultural Rogê, Lula Queiroga, o Véio Mangaba, lembra o alagoano Jacinto Silva (Coco em M), e o paraibano Zé do Norte (Meu Pião).

Mas não é só a instrumentação que marca o trabalho de Maciel Melo. A temática de suas letras é fundamental para a continuidade do forró que teve as bases assentadas por Gonzagão. Em Maciel estão tanto as alegrias e desventuras do amor, o lúdico, a poesia da cantoria de viola, que é o DNA do forró. E por fim, mas não menos importante, o forró de Maciel Melo é feito pra dançar. E por forró entenda-se não um gênero musical, e sim um coletivo que abriga diversos ritmos, do baião ao xenhenhem, xaxado, torrado, arrasta-pé, rojão e por aí vai. Na sua música nada de forró pé-de-serra de ocasião, universitário da moda, moderno produzido em linha de montagem. Este caboclo de Iguaraci faz uma música simplesmente atemporal, como toda grande arte que se preze.

por José Teles, jornalista e escritor

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