Seja bem-vindo ao BRASIL DE DENTRO. Vamos tirar o Brasil da gaveta!

LEIA!

O BRASIL DE DENTRO é um blog que não visa lucro. Seu objetivo é apenas um: desvendar o Brasil para os brasileiros. Quer ajudar a concretização desse objetivo? Faça o seguinte: divulgue o BRASIL DE DENTRO entre seus amigos. Um grande abraço!

CAMPANHA "VAMOS TIRAR O COMPOSITOR DA GAVETA"

Ajude a preservar a memória do compositor brasileiro. Adote um álbum, e, se tiver acesso aos créditos das canções, informe, nos comentários, o título de cada canção na ordem em que aparece, seguido do nome dos compositores.

COMO BAIXAR OS ARQUIVOS DESEJADOS

Tenha certeza de que você está na página dedicada ao artista procurado, e não apenas vendo uma determinada postagem, como uma nota de atualização ou uma nota biográfica. Procure selecionar o artista clicando sobre seu nome na lista apresentada no final da página.

A página do artista apresenta a seguinte ordem: biografia, vídeos disponibilizados no Youtube e as capas dos álbuns com os respectivos links. Para baixar os álbuns, basta clicar na imagem do canário abaixo da frase "TIRE ESTE ÁLBUM DA GAVETA".

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

MAYRA ANDRADE

Mayra Andrade é lovely – adorável, generosa e radiante. A sua voz baseada nas suas raízes, distinta, poética e tropical, foi imediatamente descrita há uns anos atrás como reflectindo “outro Cabo Verde” – a sonoridade de uma Cesária Évora, libertada das voltas do destino e da insígnia da tradição.

Com o lançamento agendado para breve, Lovely Difficult é o quarto álbum desta cantora de 28 anos, que afirma que a sua vida e objectivos não são tão simples como se poderia pensar. Não se trata de uma artista neo-tradicional. Pode ser adorável mas é também firme, arrojada e determinada. Adorável, mas um espírito livre tanto na sua música como na sua vida. O título do álbum, Lovely Difficult, é a alcunha que o seu parceiro em tempos lhe deu.

A voz de Mayra é uma mistura de tons radiantes, dançantes, batidas aveludadas e melodias apimentadas. A sua voz está subtilmente “temperada” com pimento, como se a Europa da pop sempre tivesse sido um arquipélago tropical. As canções invocam um verão eterno que dispersa névoas e arrepios, mas que nunca recorre ao brilho facil do exotismo. Cantadas em crioulo cabo-verdiano, inglês, francês e português, as canções transportam-nos na sua imprevisibilidade quente e aventureira.

A sonoridade pop de Mayra abrange o mundo inteiro, desde o romantismo ocidental até à sensualidade do sul, vai de um reggae europeu a uma África em três compassos. Trata-se de uma pop tropical e viajada. O seu objectivo consistia simplesmente em fazer música que reflectisse a sua vida.

O seu destino é romanesco. O seu pai foi combatente na luta pela independência de Cabo-Verde, uma luta apoiada por Cuba. Como havia receio pela saúde da mãe durante a gravidez, a mesma partiu para ter a sua filha num “país irmão”. Como tal, Mayra nasceu em Havana e adquiriu a nacionalidade cubana. A cantora passou o início da sua infância na cidade da Praia, em Cabo Verde. Depois, aos 6 anos de idade, viajou com a sua mãe e o seu padrasto que era diplomata, para o Senegal, Angola e Alemanha. Quando regressou a Cabo Verde aos 14 anos de idade, começou a cantar e ganhou uma medalha de outro no concurso dos Jogos da Francofonia em 2001, em Otava.

Cesária Évora tornou mundialmente famoso o país (“Cabo Verde – não é um cabo e não é verde”, como descreveu maravilhosamente Véronique Mortaigne do jornal Le Monde) e as batidas mulatas da ilha de São Vicente: a morna e a coladeira. Mayra Andrade é da ilha de Santiago, onde os estilos musicais têm mais percussão e são mais ritmados e africanos – o funaná e o batuque eram mal vistos pela elite colonial e, como tal, nunca foram exportados. Mayra é apaixonada por estes ritmos.

A sua primeira decisão como cantora foi o facto de adiar a gravação. Actuou muito em palco mas permanecia afastada do estúdio. Certo dia, disse algo a Orlando Pantera, o artista mais inovador e independente do arquipélago na altura:
“Não sei o que fazer com a minha música. Gostaria de fazer algo diferente.”
“Então, minha querida, pára de procurar, tens a resposta contigo. Faz algo de diferente!”
A cantora permaneceu determinada em conquistar essa diferença, mas acabou por perder Pantera, que adoeceu e faleceu aos 33 anos de idade no momento em ele ia gravar o seu primeiro disco.

Em 2006, a cantora finalmente lançou o seu primeiro álbum – intitulado Navega, uma produção marcada pelas suas raízes e gravada acusticamente a um ritmo de três canções por dia. A cantora descreve o seu segundo disco, Stória, Stória…, como “um álbum de princesa”. Foi gravado em Paris, Brasil e Cuba, e andou em digressão com uma equipa de oito pessoas para apresentar as suas músicas. Em seguida, gravou com um trio os concertos para a rádio FIP. A gravação serviu de base ao álbum seguinte, Studio 105. “Depois dessa altura, decidi que queria fazer um álbum mais pop.”

A cantora admite claramente que Lovely Difficult é um paradoxo. “Trata-se de um álbum mais diversificado e pessoal. Sou uma mulher do meu tempo, afectada por inúmeras influências. Nunca compus ou cantei em tantos idiomas.”

Sim, Mayra Andrade fala e compõe “em quatro idiomas e meio”: crioulo cabo-verdiano, português, espanhol, francês e inglês (o tal meio). Pertence a uma geração fortemente ligada à sua identidade cabo-verdiana. Agora, chegou a altura de alargar os horizontes. Existem duas vezes mais cidadãos cabo-verdianos no estrangeiro do que no país de origem. Esta diáspora torna a pequena nação numa das mais cultural e intelectualmente dinâmicas em África. “Mas sinto que Cabo -Verde ainda tem resistências quanto à abertura da música tradicional à modernidade. Somos um pouco como o Brasil na era do samba e da bossa nova.”

Mayra quis que o álbum fosse revolucionário mas simultaneamente acessível, pop e arrojado, eclético e pessoal. A cantora admite: “não gosto de discos que parecem uma salada russa. Seria uma humilhação fazer um disco que soasse a uma compilação de idiomas e de estilos.”

Lovely Difficult é exactamente o oposto: é a demonstração de uma liberdade e de uma individualidade que nada ligam aos limites estilísticos e linguísticos. Desta vez, a cantora colaborou com artistas de origens muito distintas: Yael Naïm e David Donatien, Piers Faccini, Tété, Benjamin Biolay, Hugh Coltman, Krystle Warren, Pascal Danäe, Mario Lucio Sousa, entre outros. Cada um destes temas fala sobre o amor – “à excepção de Rosa, que fala de solidão.”

Mike “Prince Fatty” Pelanconi (que trabalhou com nomes como Lily Allen, Graham Coxon, etc.) produziu o álbum em Brighton e juntos conseguiram alcançar um prodigioso equilíbrio tendo que ele nunca tinha gravado um disco de world music e a cantora nunca tinha cantado música pop. Segundo a Mayra “foi o encontro de dois “iletrados” com grande sensibilidade que tinham apenas as suas antenas e os seus instintos para se guiar.”

A cantora gosta de pensar que o seu álbum transmite o mesmo sentido de aventura que se pode encontrar na obra de Caetano Veloso. “Porque não permitir o crescimento, a mudança e o movimento? Porque não deixar o público habituado a esperar o inesperado?” Sim, totalmente lovely e honestamente difficult.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Topo da Página ↑