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terça-feira, 2 de julho de 2013

CUCA ROSETA

Nestes dias difíceis e céticos começa a ser quase perigoso acreditar em predestinações e outros fenômenos que dependam mais do espírito do que dos sentidos. Mas depois conversamos com pessoas como a Cuca Roseta, que de repente, num sorriso meio desabafo meio suspiro, confirma docemente: “Acho que nasci para isto”.

“Isto”, entenda-se, é a sua vida. “Isto” é o fado.

E é esta absoluta sinceridade, quase à beira da displicência, que nos deixa perplexos, quase escandalizados. Esta aceitação natural de um destino, visível nos olhos escuros de Cuca, é também o sinal do que o que diz é genuíno e sentido. E ainda por cima tem razão.

Felizmente para nós, o primeiro passo desse destino está agora registrado em nome próprio: Cuca Roseta. O disco de estreia mostra a verdade de quem canta aquelas palavras. Porque o fado tem este mistério: não deixa mentir.

Já lá iremos. Demoremo-nos agora um pouco pelos dias de Isabel “Cuca” Roseta, para percebermos que palavras tão gastas como essenciais - quando se escrevem textos sobre fado - por vezes fazem todo o sentido. Palavras como “destino” ou “alma”, por exemplo.
A verdade é que nada na vida de Cuca Roseta deixava prever o fado que um dia a iria escolher. Não havia na família antecedentes fadistas e o gênero musical mais ouvido na sua casa era a música erudita. Até que, aos 18 anos, vai a uma casa de fados. Primeiro embate, primeira pequena invasão na alma de Cuca Roseta: se o fado ainda não a seduzia por completo, começou a precisar dele para a vida: “Ia às casas de fado mais pelo lado emocional, era muito intenso”, lembra. Sem o saber já era tarde: o fado tinha-a definitivamente escolhido.

Começou a cantar, timidamente. Uma vez, um ouvinte especial percebeu na sua voz a verdade que começava a saber dizer. Era Carlos Zel, que insistiu: “Tens de aprender mais fados”. Ela prometeu que o iria fazer.

Mas a vida tem esta mania de se intrometer nos nossos planos e de repente Cuca pertence a uma banda pop que apenas com um pequeno repertório deixava marca no panorama do burgo – os Toranja, de Tiago Bettencourt. Foram tempos excitantes, uma aventura de sucesso. Mas havia um vazio, sempre um vazio…

Já com uma licenciatura em Psicologia, decide participar num concurso de fados no Porto. Aprendeu oito temas. Mas o maior prêmio de Cuca veio em forma de uma inabalável certeza: “É isto que eu quero fazer”, terá pensado na altura. E determinada, foi em busca do que lhe estava destinado.

Foi um ano a deambular por Lisboa, a cantar e a aprender, sempre a aprender. Tornou-se uma presença habitual nos locais onde acontecia fado, falou com músicos, outros fadistas. “Havia um mundo de coisas para aprender, que tinham a ver com a poesia, com a emoção”. Conheceu Ana Moura, que a encoraja a continuar. E uma noite é apresentada por Nobre Costa a João Braga, conhecido pelo seu gosto e visão de lançar novos fadistas nos seus espetáculos.

“O que fazes daqui a três dias?”, terá perguntado o fadista a uma muito impressionada Cuca Roseta.

“Nada.”, respondeu.

“Ótimo. Então vais entrar num espetáculo comigo para a RTP”.

Alguém falou em destino?

Depois se seguiu o ciclo do Clube de Fado. Mário Pacheco, guitarrista e proprietário da casa, tem uma sensibilidade especial para as novas vozes. Gostou da nova fadista e rapidamente passou a integrar o prestigiado elenco. Durante este tempo soube absorver todos os segundos de fado à sua disposição. E foi numa dessas noites em que não deveria lá estar que aconteceu o que justifica estas linhas. Assim, sem planos ou esperanças. A noite em que sem estar previsto, absolutamente por acaso, sorte ou mistério, Cuca Roseta encontrou o argentino Gustavo Santaolalla: músico, produtor, reconhecido compositor de bandas sonoras (com ´Oscares pela música de Babel e Brokeback Mountain). O tal destino teimoso, em que cada vez mais Cuca acredita. Diz ela, como que revendo essa noite pela primeira vez, pausada mas definitiva: “Acredito no destino. E tudo me aconteceu de forma simples, apanhando-me quase distraída”.

Ao ouvi-la cantar, Santaolalla, depois do deslumbre, disse de imediato querer gravar com ela. Cuca, sensatamente, estranhou – porque não fazia ideia sobre quem era o desconhecido que lhe fazia semelhante proposta. Alguém enfim identificou o argentino, Cuca pede desculpa por não ter ideia de quem era o produtor. Santaolalla responde: “Não interessa quem sou. O que interessa é que vi em ti uma estrela”. E saiu.

Os dias foram passando, e Gustavo continuava a ligar e a insistir para que Cuca conhecesse o projeto musical que o produtor tinha construído para ela. Entretanto, outras editoras, sabendo do interesse do produtor, começam a cercar Cuca Roseta, que recusa tudo com a força que provém da certeza da paixão (“a minha relação com o Gustavo foi mesmo um caso de amor musical”, irá confessar mais tarde. E desta maneira o que tinha que acontecer, aconteceu. Começava a nascer o disco Cuca Roseta.

Todos os fadistas que fazem o seu percurso em casas de fados passam por uma terrível provação quando têm que enfrentar a solidão do estúdio. A rapariga que participou em Fados de Carlos Saura ou cantou para Bento XVI durante a visita do Papa a Portugal conseguiu dar tudo o que tinha, beneficiando do incrível ambiente proporcionado por Gustavo Santaolalla. E confirma: “Não senti muito a solidão de estar ali a gravar, entreguei-me à emoção”. O resultado é um belissimo disco de estreia, com um repertório que passa por alguns clássicos (“Rua do Capelão”, “Ave Maria Fadista” ou “Marcha de Santo António”), outros fados musicados (o magnifico “Porque Voltas De Que Lei”, letra de Amália com a colaboração do próprio produtor e do tanguero Cristobal Repetto; ou “Maré Viva”, um poema de Rosa Lobato Faria levado para o castelhano por Santaolalla), e sobretudo a afirmação de Cuca Roseta como letrista em causa própria. Excelentes exemplos são “Homem Português” e “Nos Teus Braços”, onde Cuca assina também a musica. Esta “autonomia” de talento torna-a assim ainda mais próxima do que canta.

Como cúmplices musicais perfeitos, Mário Pacheco na guitarra, Pedro Pinhal na viola de fado e Rodrigo Serrão no contrabaixo. E ao comando de tudo, a extraordinária sensibilidade de Gustavo Santaolalla, a dar espaço, tempo e voz para que Cuca cumpra o que sente e enfim o possa mostrar ao mundo, porque a alma e universal.

Talvez estes sejam dias difíceis, em que a realidade nos invade mais do que gostaríamos. Mas a alma resiste, a alma persiste. A força quase mística que se desprende de Cuca Roseta, a sua fé, a sua comunhão com o que sente e com a natureza que a rodeia pode oferecer esperança de redenção de tudo pela beleza. Quando se volta a insistir no destino, ela sorri outra vez e outra vez nos desarma: “Eu quero simplesmente cantar”. E levanta-se, e se junta aos músicos que a esperam e a sua voz afinadíssima prende-se com a da guitarra portuguesa e deixamo-nos levar por este caminho de verdade absoluta.

Nuno Miguel Guedes


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