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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

ZÉ MODESTO

Zé Modesto, 34 anos, paulistano, formado em História pela Universidade de São Paulo atua há doze anos como professor. Entende-se melhor na vida quando umbricado em música e poesia. Amante, apreciador e estudioso da canção brasileira, tendo os choros antigos, os sambas e as serestas desde muito cedo tomado conta de seus ouvidos, soando diariamente ora do clarinete de seu pai, ora do violão tenor do velho Duca, avô querido, fazedor de quadrinhas, a quem dedicou o CD de estréia "Esteio".

É a simplicidade que Zé Modesto persegue na arte. Dessa busca vem o gosto pelos cantos de trabalho, benditos, ladainhas, capoeiras e folias. Daí o encontro com as Adélias, Guimarães e Bitucas, esteios do universo mineiro, principal manancial de sua criação, que mistura com os sambas das antigas e as tonalidades urbanas indissociáveis de sua alma paulistana.

Um vôo panorâmico sobre Esteio
por Cristiane Fernandes

ESTEIO está cheio de estórias... à maneira mineira de Guimarães Rosa, presença poética marcante, especialmente em Diadorando. Composta em tons roseanos, expressa o garimpeiro cuidadoso das palavras nos Campos Gerais da poesia. É lá que este contador de histórias e estórias busca aprumar sua vista. Além de bela paisagem para os olhos, a canção, na voz da cantora Ceumar, encanta a alma com delicadeza e suavidade. É assim, em meio a mais pura poesia, que iniciamos nossa travessia por um sertão musical que une com maestria desvãos de um chão árido e veredas límpidas, margeadas por altos buritis em busca de céu e luz.

Em ESTEIO, o sertão é vasto e sem fronteiras. Ao lado da prosa poética tipicamente mineira, encontramos também o lirismo ibérico melodioso, embalando Estrada, canção interpretada pela cantora Anunciação. O tempo bom de colheita cantado em Estrada, em nada destoa do tempo de lamentos, cantado em Deserto, por Renato Braz, vencedor do último Prêmio Visa, versão cantores. A textura grave da voz irretocável de Renato e a melodia incidental Cantemos a Jesus, de tradição popular católica, tornam macia a caminhada deserto adentro.

Em seu profundo mergulho no interior do sertão humano, Zé Modesto colhe luz e breu e transforma um e outro em poesia. Não são apenas estórias a habitar Esteio. A estrada aqui é iluminada também por Estrelas, samba-canção composta a partir de um poema de Ernesto Cardenal, poeta nicaraguense. Com Estrelas, passamos da poeira do sertão à poeira dos Cânticos Cósmicos, dos morros das gerais aos morros cariocas.

O samba de raiz dos mestres Elton Medeiros e Paulinho da Viola, sopra seus ventos em Do Amor, com predominância da poesia metalingüística. Zé Modesto propõe-nos uma reflexão sobre a arte que ordena o caos profundo da existência e também sobre o amor guardado na memória retinta das cores. E já que estamos falando de amor, deitemos olhos e ouvidos sobre Prece, interpretada por Dalci, cantor e compositor de extrema sensibilidade e requinte musical. A reiteração melódica e poética da canção insere-nos em outros espaços. Em Prece, somos levados aos vãos dos degredos e, desorientados, navegamos por leitos densos. A interpretação deste novo cantor convida-nos à rara possibilidade de reverenciar o silêncio, condição indispensável para fazer brotar essências. Este tom reflexivo aprofunda-se ainda em Calendário, parceria com o ator e poeta Gero Camilo e em O ciclo da lua cujo arranjo de Chico Saraiva (vencedor do último Prêmio Visa, versão compositores) e o veludo da voz de Juçara Marçal dialogam de forma ímpar.

Finalizando o cd, temos o lado eclético do compositor na variedade rítmica. O anel do cirandeiro é um xote que conta com a participação especial de Lula Alencar na sanfona, com a vivaz interpretação de Marcelo Pretto, do grupo A Barca, e de Ana Leite, cantora que alia a técnica vocal à espiritualidade própria da música popular brasileira. Tem jeito não, uma rumba-brasileira iluminada pelo trombone de Alê Arruda, trata com leveza e ironia temas contemporâneos, abrindo caminho, com seu humor irreverente, à linguagem lúdica de Camisa Vermelha, abrilhantada pelas sutilezas da interpretação do cantor Rubi. “Desilhados” e em companhia de um lalaiá entoado em coro, finalizamos o cd com o que na verdade é o início de um sorriso aberto, daqueles raros.


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