O fado no sentido
Na arte e vida de Cristina
Branco (Almeirim, 1972) pode dizer-se, como diz a letra de Amália, que traz o
fado nos sentidos. O fado atravessou a vida de Cristina por um acaso feliz. De
certa maneira, terá sido ela, pela sua ousadia estética e cunho interpretativo
muito particular, a atravessar o Fado enquanto fenómeno musical de profundas
raízes tradicionais. «Começou por uma brincadeira, um serão de cantigas entre
amigos», segundo gosta de recordar. Nada até aqui, adolescente, a diria
fadista. Antes de entoar menores, mourarias ou maiores, e logo como gente
grande, Cristina não frequentara casas de fado ou escutara o vinil das vozes da
tradição. Conhecia alguns fados de ouvido, trauteados pelo avô materno, letras
e acordes que repetia de improviso sem ter consciência de como estes se
entranhavam, como lhe decidiam o destino. Estava por essa altura mais próxima
de Billie Holliday e Ella Fitzgerald, de Janis Joplin e Joni Mitchell do que
Amália Rodrigues. Quando o mesmo avô lhe ofereceu pelos seus 18 anos o disco
“Rara e Inédita”, obra maior e menos conhecida da grande diva do Fado, não
sabia ainda como acabara de lhe mudar a vida para sempre.