De João Pessoa, na Paraíba,
Mestre Esmeraldo comanda o projeto musical Chico Correa & Electronic Band, aponta uma
trilha saliente na paisagem sônica brasileira e funde referências
sertânico-agrestes a aspirações globo-locais. O trabalho da banda impressiona
pela liberdade com que seus músicos
encontram parentescos entre gêneros tão diversos quanto rock, funk, bossa nova,
baião, samba de coco, jazz, jungle, trip hop, dub e outros.
A banda ganhou visibilidade
em 2003, no Festival Abril Pro Rock (Recife/PE) e no TIM Festival (Rio de
Janeiro/RJ). Desde 2002, teve diversas formações, capitaneada por Chico Correa
(guitarra, programação eletrônica, efeitos digitais) e consolidada a partir de 2004,
com Ed (contrabaixo), Larissa Montenegro (vocais), J. Cassiano (percussão),
Vitor Ramalho (bateria e percussão) e Stephan Suíço (sax).
Chico Correa narra os
primórdios:
"A idéia era simples, eu
e computador, só loop e groove, só love. Depois da entrada dos músicos e da
cantora, acabou mudando prum lance ambient-regional. Eu gravava em MD: dava
play e tocávamos por cima. Hoje usamos samples, groove-box e metrônomo pro
baterista, há mais possibilidades de combinar e recriar ao vivo."
No disco a ser lançado ainda
no segundo semestre de 2005, as duas tendências se equilibram. Os ritmos vão do
berimbau-jungle cru e instigado de "Afrotech" ao agrestewek
cangaço-gangsta de "Côco de elevador" e o baião-de-viola sincopado de
"Esperando o dia passar". O eletrofunk é a praia em que transita
"Eu pisei na pedra", enquanto "Mangangá" junta rock e
maracatu, mas com uma fórmula diferente da usada pelo mangue-beat. Outras
pistas: "Bossinha", "Baião lo-fi"... A fauna humana local é
representada por "Lelê" (toada de saudade interestelar),
"Zabé" (tecno-embolada) e "Odete" (drum'n'roots).
Ao vivo, o grupo atua como um
live-PA: Chico manipula a parafernália eletrônica e conduz a guitarra, a
graciosa voz de Larrisa dispara glissandos mouriscos e o quarteto de jazzistas
galopa faixas de áudio que sincronizam o tradicional samba-de-coco-de-engenho
paraibano com células de step-funked breakbeat.
Parece noite de
drumba-meu-boi: arrasta-scratches, schottische-scratches e xaxado remixado
sacudindo retro-retirantes e alto-falantes induzindo à dança o homem-gabiru,
genuinamente ao "som do demônio", no sentido de uma mistura de música
de black magic com demonstration tape, xangô de batuque e gene de drum machine.
No meio dessa encruzilhada de
ruídos, versos de domínio público:
"Olê, olá, o coquista
está aqui."
Ou:
"Serena, serená,
serená do amor,
nos braços de quem me ama
morro, mas num sinto a
dor."
Ou:
"Eu pisei na pedra,
a pedra tremeu,
a água tem veneno,
oi morena,
quem bebeu, morreu."
Chico desde 1999 produz esse
sons. Ele foi pesquisador do Laboratório de Estudos da Oralidade (Universidade
Federal da Paraíba) e colabora no grupo paraibano Jaguaribe Carne ("Vem no
vento", 2003) e na comunidade transregional Re:combo (www.recombo.art.br).
"Toquei com Eleonora Falcone durante um ano, eletrônica sutil com tango,
MPB, bossa e coco, fiz shows com Lado 2 Estereo e Gilberto Monte (da banda baiana
Tara Code)", martela o músico. Em 2005, Chico Correa & Electronic Band se apresentou várias vezes em
São Paulo e passou também por Salvador/BA, Belém/PA e Brasília/DF.
Que venham mais shows, e que
a eles venham caranguejos, caipiras, caiçaras, sertanejos, cangaceiros urbanos,
ciber-sacizeiros, clubbers caboclos. Chico Correa & Electronic Band é a
música nômade nordestina desta década, a "viver de porta em porta, com a
mochila na mão".
Nenhum comentário:
Postar um comentário